Os últimos dias de Krypton

Os últimos dias de Krypton

O romance narra a derradeira história do planeta Krypton, centrada no cientista Jor-El e no perverso General Zod, em meio a intrigas políticas e ameaças alienígenas.

Os leitores já começam sabendo que Krypton será destruído no final, e que Kal-El será enviado à Terra num foguete para adotar a identidade de Superman. Mas o mérito deste romance, assinado por Kevin J. Anderson, é dar forma a tudo o que antecede o cataclismo cósmico e fazer o público realmente se importar com o destino de tais personagens.

A história pregressa do planeta perdido evoluiu no imaginário coletivo ao longo das eras, dos primórdios de Jerry Siegel e Joe Shuster até adaptações para cinema e televisão, passando pela reformulação de John Byrne, na década de 1980, e vários revisionismos nos anos seguintes, por nomes como Jeph Loeb e Mark Waid.

Neste livro recém-lançado no Brasil, Anderson toma diversas liberdades em relação ao mito, aproveitando elementos consagrados de numerosas versões, descartando muitos outros. Sobretudo, ele cria uma saga coerente do declínio de uma civilização avançada, que dará origem ao maior herói de todos os tempos.

Os últimos dias de Krypton, antes de tudo, é uma história de ficção científica com tons políticos e primor na composição de personalidades distintas, com tudo para agradar os seguidores mais dedicados do Homem de Aço, mas também os aficionados por cultura pop de modo geral.

O cientista Jor-El e sua amada Lara, o irmão Zor-El e o odioso Zod ganham forma na trama sobre um mundo condenado, a sociedade futurista que estagnou em decorrência de seus próprios avanços. Ficaram de fora temas como clonagem e espiritualidade, já bem explorados no Krypton dos quadrinhos, e o autor centra sua atenção na intriga política, primando por redimensionar situações que o leitor pensava conhecer.

É assim até com a invasão do robótico Brainiac e o destino da cidade de Kandor, da descoberta da Zona Fantasma e da ascensão do General Zod ao poder. O autor estabelece até uma ligação com o fim da civilização marciana, inédita na cronologia oficial do Universo DC.

A interpretação diferenciada sobre o planeta natal do Superman ganhou muito pelas mãos de um escritor experiente no campo da ficção científica, que entende e conhece a mitologia dos quadrinhos, mas não se prende a eles. Kevin J. Anderson tem no currículo romances situados nos universos de Star Wars e Arquivo X, além da expansão de Duna, de Frank Herbert, e sua própria série Saga of Seven Suns.

Bem versado em histórias fortes com visões marcantes de criadores distintos, Anderson compôs uma saga kryptoniana de personalidade própria, uma perfeita reinvenção do mito que não decepciona os fãs mais exigentes.

Com o sucesso da investida, ele escreveu depois o romance Enemies and Allies, sobre a reunião de Superman e Batman na década de 1950, cuja publicação é ainda mais pertinente após o anúncio do encontro dos Melhores do Mundo na produção cinematográfica a estrear em 2015.

Assim, Os últimos dias de Krypton foi lançado pela Casa da Palavra em momento oportuno, coincidindo com o sucesso do filme O Homem de Aço, dirigido por Zack Snyder e estrelado por Henry Cavill.

O super-herói original sempre se destacou por versões inspiradas dentro e fora dos quadrinhos, conquistando apreciadores que não o seguiriam em gibis mensais.

Vale ressaltar a ousadia em apostar num livro inspirado na lenda do Superman, mas sem a presença do herói, comprovando a permanência de sua origem no coração da nossa cultura. Impossível não terminar a leitura sem se sentir também um pouco filho de Krypton, e compartilhar com o herói a dor de sua perda. E aí está o melhor que se poderia dizer sobre a obra.

Fonte: Casa da Palavra